6 de novembro de 2010

Artistas de Mossoró lançam manifesto para Rosalba

ARTISTAS LANÇAM MANIFESTO PRÓ-CULTURA

31 de outubro de 2010

Este manifesto é resultado de uma articulação de agentes culturais e artistas, aborda de forma sucinta uma fotografia da cultura do Estado do RN, e delineia um perfil para o cargo de gestor cultural. Trata-se de uma produção textual coletiva com a participação de Augusto Pinto, Aldacir de França, Carlindo, Ceição Maciel, Cleide, Lenilda Sousa, Joriana Pontes, Messias, Nonato Santos, Toinha Lopes.

Senhora governadora Rosalba Ciarline:
Somos produtores culturais, artistas profissionais, e em formação das áreas de musica, teatro, Artes visuais, Cinema, Dança e poesia. Trabalhadores da arte, com extensa folha de serviço prestado ao povo de Mossoró e do rio grande do norte, de forma presente, pulsante e continua temos trabalhado a serviço da produção, circulação e fruição dos bens culturais, bem como da democratização da arte, como forma de garantir cidadania ao povo potiguar.

Nosso compromisso ético é com a função social da arte. O que nos une no que denominamos de Articulação em Defesa da Cultura Potiguar é desejo de contribuir com o governo da Sra. Rosalba Ciarlini que em seu programa de gestão já se anuncia novo, sensível e comprometido com os sonhos dos que fazem a cultura do nosso estado, quando se compromete de imediato encaminhar projete lei para criar o Fundo Estadual de Cultura com destinação de 1% da arrecadação o ICMS anual, criando assim uma fonte estável e permanente para o financiamento das atividades e iniciativas culturais.

Entendemos que a criação do Fundo Estadual de Cultura pressupõe a elaboração de um Plano Estadual da Cultura, com formação do conselho paritário para que as políticas culturais sejam formuladas de forma democrática e tenham a sua continuidade garantida.

Entendemos ainda que uma intensa movimentação cultural, não constitui uma política de cultura, pois de fato a política cultural que limita se à promoção de alguns eventos, os grandes espetáculos a céu aberto, os quais, ainda que se imponham como grandes realizações estéticas, não têm contribuído como se esperava para o incremento da produção artística local; por outro, entendemos que o dinheiro público deve servir principalmente, para financiar shows, eventos e projetos a que venha contribuir com os processos de socialização, de criatividade, que venham realçar os valores humanos.

No entanto as nossas perspectivas positivas com relação a uma nova gestão para a cultura do Rio Grande do Norte, que entendemos tende a ouvir e atender os anseios do movimento cultural; preocupa-nos a manutenção de alguns avanços pontuais que consideramos conquistas da classe artística até o presente passamos a enumerá-las:

Política de editais
Nos últimos dois anos foram inúmeros editais lançados pela FJA, podemos citar o Premio Chico Villa, Lula Medeiros, Micros Projetos + Cultura, Premio Nubia Lafaete, Premio Cornelio Campina, Premio Willian Colbert, Prêmio de Dança Roosevelt Pimenta, Prêmio Moacyr Cirne de Quadrinhos, entre outros que com a seleção pública de projetos culturais, atraves utilização de editais, representou uma forma democrática e republicana para a distribuição de recursos públicos aos p rojetos e atividades culturais. Os editais fazem com que a destinação dos recursos públicos para a área cultural seja feita de forma transparente e aberta, com regras claras e critérios objetivos, tornando as políticas públicas de cultura mais difundidas e mais acessíveis a produtores e grupos culturais.

Pontos de cultura
Os pontos de cultura (iniciativas culturais desenvolvidas pela sociedade civil que estão sendo potencializadas pelo Governo Federal), que não passava de meia dúzia nos últimos tempos passaram para o numero de 53 em todo estado. Preocupa-nos a continuidade da parceria da fundação José Augusto e ministério da cultura no que se refere a manutenção dos 53 pontos de cultura e mais 13 em processo de implantação, havendo informação de que haveria interesse do ministério em la nçar edital para mais 100.

Projeto Seis e meia
O Projeto Seis e Meia veio para Mossoró pela primeira vez em 1996, ficando até o ano de 1999 Nesta época era muito difícil realizar o projeto na cidade, pois alem de cobrir os custos da produção com a venda de ingressos, diferentemente de Natal, não havia cachê fixo e o artista local recebia o valor referente em ingressos, que ele tinha de vender. No atual formato dos seis e meia o projeto passou a ser totalmente custeado pela fundação e com a contribuição da iniciativa privada em forma de patrocínio. O projeto seis e meia traz ao estado o que tem melhor da música nacional e enaltece os artistas locais.

As casas de cultura
São 25 casas de cultura inauguradas no RN que tiveram como mérito maior o tombamento de alguns prédios históricos para o patrimônio arquitetônico cultural. Que apesar do fato de pouco se conhecer do funcionamento real destes equipamentos, entendemos que \?As Casas\? poderão no futuro constitui-se numa solução a um processo necessário de interiorização da Fundação José Augusto. Além de serem utilizadas para favorecer o acesso da população aos bens culturais, podem dinamizar a promoção da cidadania.

Teatro Estadual Lauro Monte Filho e Teatro Adjunto Dias
Estes espaços teatrais conquistados pela classe artística ainda no governo Garibaldi já tiveram em tempos áureos intensa programação cultural, nos últimos anos por falta de manutenção e ausência de critérios técnicos na contratação de pessoal e mesmo a inexistência de funcionários, se tornaram verdadeiros elefantes brancos, assim se faz necessário além da manutenção dos espaços e a devida dotação orçamentária a contrataç ão de pessoal especializado em curto prazo e em longo prazo a realização e concursos para compor o quadro técnico especializado permanente destes equipamentos.

Agosto de Teatro
Em sua segunda edição e sucesso de público, o Festival Agosto de Teatro promovido pelo Governo do Estado e realizado pela Fundação José Augusto, tendo como objetivo geral reunir os fazedores de Teatro do estado, o festival agosto de teatro veio ocupar uma lacuna enquanto espaço vitrine da produção local, possibilitando a apreciação, reflexão e discussão dos espetáculos, como também, oferecer ao público acesso às mais variadas produções teatrais potiguares promovendo o intercâmbio entre os artistas e proporcionando o debate de temas pertinentes ao fazer teatral, se constituindo como espaço de discussão de espetáculos e formação de platéias.

Além destas ações que gostaríamos que houvesse continuidade e atenção por parte do novo governo, e ainda com base nos compromissos de campanha através do programa de cultura, no que diz respeito à interiorização das escolas de arte e a estimulação da cultura de produção e consumo da arte de sugerimos a realização das ações:

Poesia Popular Nordestina
A Fundação José Augusto em parceria com a Secretaria da Educação, através oficinas de literatura de cordel e da prática do repente possibilitará a descoberta de novos valores poéticos, o que por consequência, poderá resultar numa relevante produção poética no contexto da Poesia Popular. Além da possibilidade de criar e ampliar o mercado de trabalho para cordelistas, declamadores e repentistas, o projeto será uma forma de reconhecimento e valorização dos mest res da poesia popular.

Festivais e Mostra de Cultura Popular
Aproveitando os equipamentos já existentes das Casas de Cultura, propomos ainda, a realização de Festivais de Repentistas, Festivais de Sanfoneiros, Mostras de Teatro de Bonecos, Oficinas e Cursos sobre as normas técnicas da Poesia Popular Nordestinas, Festivais de Humor, de Teatro ( cursos e oficinas ), de Música, de Folclore, todas essa ações objetivando a descoberta de novos talentos capazes de produzir arte, poesia, música e humor, o que indubitalvemen te, enriquecerá e ampliará ainda mais, a cultura a arte do nosso Estado.

Balcão de Ferramentas Culturais
Considerando a existência de inúmeros editais no campo cultural e que Dentro da cultura, o sub setor do entretenimento que reúne cinema, teatro, televisão e música são um dos mais intensivos em trabalho (Publicado no O Estado de S. Paulo, 29/04/2008), sugerimos a criação de um balcão da cultura com atuação voltada especificamente para o fomento da economia da cultura, culturalização da economia e atividades do entretenimento. Podendo atuar tanto na capacitação de artistas e produtores e na captação de recursos, bem como da criação de uma linha de financiamento para aquisição de equipamentos e instrumentos musicais.

Ponto de Vista da Classe artística:
Acreditamos que o fortalecimento e desenvolvimento da arte e da cultura do Rio Grande do Norte, além da vontade política da governado ra passam também pela habilidade administrativa e pela capacidade técnica do futuro presidente da Fundação José Augusto dada a oportunidade sugerimos um perfil que consideramos ideal para um gestor público da área cultural:

1. Acesso: Direto a governadora e outras esferas do poder executivo estadual através da utilização correta do feedback.

2. Experiência: na gestão da cultura e positividade na resolução dos problemas

3 Sensibilidade: para perceber o outro e habilidade para fazer articulações.

4. Formação: caráter e atitudes pluridisciplinar das tarefas faz imprescindível um nível altivo de formação tanto em disciplinas humanísticas como em gestão.

5. Abertura Intelectual: estar disposto à troca e a inovação, as propostas diferentes, as posições fechadas limita as ações de um gestor cultural.

6. Aprimoramento: Capacidade de lidar com relações interpessoais, de lidar com trabalhadores da arte, respeitando as diferenças e necessidades das pessoas físicas ou jurídicas.

7. ?Ouvido?: se vincula a sensibilidade e a abertura intelectual, e as disposições a escutar o outro para obter objetivos comuns.

8.Utilização de uma comunicação que facilite compreender e ser compreendido pelos artistas promovendo um clima de confiabilidade na demanda da cultura. Percepção dos mecanismos geradores de conflitos e busca de alternativas para solucioná-las

9. Reflexos: para reagir ante o inesperado, a surpresa, o impensado, que é bastante comum no campo da cultura; destreza para improvisar.

10. Capacidade de adaptação e organização: indispensável para se adequar a realidade alterada, a equipes de trabalho (os gestores individualistas se esgotam rápido).

11. Paciência: Em miúdos, os resultados tardam bastante em chegar, os processos são lentos?

12. Atitude de serviços: se trabalha por um projeto e para as pessoas, não para satisfazer o próprio ego.

13. Criatividade: indispensável para resolver situações novas, para gerar ações.

14. Compreensão da administração: o gestor tem de lidar com burocracias de todas as formas, oficial e privada, e tem que estar preparado para fazê-lo com habilidade e paciência.

15. A gestão da área cultural é bastante complexa, pois dialoga com outras áreas e outros saberes desta forma para dar conta de toda a diversidade exige do gestor uma formação interdisciplinar onde haja noção de economia da cultura, marketing, ética profissional, princípios jurídicos, bem como dominar técnicas de planejamento e gerenciamento organizacional levando em consideração as diferentes áreas culturais, e suas ocorrências. È indispensável que acompanhe de forma ativa as políticas culturais vigentes em todos os níveis governamentais: Municipal Estadual Federal.

Esta é nossa contribuição para o momento, e aproveitando o reiteramos aqui a nossa vontade e disposição de contribuir junto ao novo governo para o desenvolvimento artístico e cultural do nosso estado, e acreditamos que continuaremos avançando sem retrocessos. Dirigimo-nos a senhora governadora a nosso público, e ao povo do RN com a convicção que estamos no rumo certo e disposto a apoiar as políticas de investimentos para produção cultural. Finalizamos está comunicação prestando o nosso reconhecimento e estima a senhora Governadora Rosalba Ciarline e a todos e todas que acreditam na arte e na cultura como elemento propulsor para o avanço da sociedade.

?Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade?
Raul Seixas

5 de novembro de 2010

Glosas melancólicas para Marina Silva.

Glosas melancólicas para Marina Silva.


Uma foi arrochada alagoana

Desancou o Lulinha pra cacete

E depois de meter o seu porrete

Ostracismo demais essa sacana

Mas tem outra viril que se engalana

Pra fazer o joguete de tirano

Veio e foi se mostrar em muito plano

E depois nada novo lhe acontece

Vai sumir a Marina pois merece

Por servir de escada pra tucano



Queridinha demais ficou famosa

Holofotes demais e foi no Jô

Mas findou seu Gabeira no complô

Apoiou toda turma mais sebosa

Tucanada senil falaciosa

Mas Marina ficou sem mano a mano

E no muro de cima não me engano

E agora Marina? Pra onde desce?

Vai sumir a Marina pois merece

Por servir de escada pra tucano



O PV é pra ver a ecologia

Mas aqui faz o jogo da direita

Eco é, mas de lobo na espreita

E assim se juntar em torta via

Marinou se lascou sem serventia

E no fim não causou em nós um dano

Pois venceu um projeto soberano

A baranga dançou fazendo prece

Vai sumir a Marina pois merece

Por servir de escada pra tucano



Se Gabeira pra Serra se mandou

Seu PV se mostrou bem claramente

A Marina mixou e nessa frente

Boa fama na hora granjeou

Mas daqui pro futuro já murchou

Vai mostrar que se fez um tal engano

Ajudar pra eleger o tal fulano

Não colou de derrota assim padece

Vai sumir a Marina pois merece

Por servir de escada pra tucano

Allan Sales

4 de novembro de 2010

AOS XENÓFOBOS.

AOS XENÓFOBOS.

Uma gente muito tosca
Gente que tão porco pensa
Não conhece meu Nordeste
Desconhece faz ofensa
Ô gentinha descabida
...Uns burrice adquirida
Outros burros de nascença

ALLAN SALES

Hoje lançamento de Donizete Lima

2 de novembro de 2010

Isso é Natal



http://canindesoares.blog.digi.com.br/blog/

Regulamentação e hipocrisia

Regulamentação e hipocrisia
Publicado em 15-Out-2010

(artigo publicado no Blog do Noblat em 15 de outubro de 2010)


O ministro Franklin Martins foi à Europa convidar entidades internacionais para que participem de um seminário que será organizado pelo governo federal em novembro, no qual será discutido um projeto de regulamentação da comunicação por meios eletrônicos no Brasil.

A proposta será discutida pelos próximos parlamentares, que têm mandato até 2014, num amplo processo de debates como é da regra do jogo democrático. O mesmo caminho foi trilhado pelos demais países democráticos que aprovaram em seus Parlamentos legislações de regulação da mídia.

A mídia não é um segmento econômico qualquer. Seu produto são os fatos, as opiniões e as ideias, importantes para o debate político, para a fiscalização dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, para a formação da opinião pública. Mas a mídia, como outros segmentos econômicos, precisa ser regulada para que se impeça que meios de comunicação exerçam seu poder significativo de mercado, ou seja, a força de seu monopólio, quando ele ocorre, em detrimento dos direitos do cidadão e das liberdades individuais.

Embora as legislações modernas dos países desenvolvidos contemplem a regulação da mídia como peça importante da garantia dos direitos democráticos, as entidades que representam os maiores jornais e as redes de TV e Rádio já estão em alerta. Especularam, em seus jornais, que o governo do presidente Lula estuda medidas “autoritárias” de “limitação da liberdade de imprensa”.

Esse receio só pode ser fruto de ingenuidade ou má-fé: a viagem do ministro à Europa se dá justamente em um momento em que o Velho Continente, por meio da União Europeia, também está discutindo a regulamentação do setor.

No caso europeu, há necessidade de atualizar as leis vigentes para contemplar as possibilidades mais recentes de comunicação pela Internet. Já no Brasil, a necessidade de revisão é mais ampla, pois a legislação da radiodifusão data de 1962, mais do que ultrapassada. Uma legislação caduca, atropelada pelo advento da Internet e da convergência tecnológica que permite que por meio da mesma rede se transmita múltiplos serviços. Pelo celular, por exemplo, se pode acessar a Internet, ler notícias, mandar e-mails, jogar e assistir aos programas de televisão.

Essa nova realidade de comunicação multimídia por diversos meios, que vão muito além do rádio e da TV, exigem uma nova regulação. Em primeiro lugar, para evitar que a entrada em cena das operadoras de telecomunicações, fortes e poderosas, formem novos monopólios, aumentado ainda mais a concentração de mercado. Em segundo, para impedir que as empresas de mídia atuais ampliem seu poder de mercado, sem mecanismos de controle social. E mais do que isso: é preciso garantir espaço para as produções de conteúdo nacional.

Isso os países europeus já têm. Na França, o Conselho Superior do Audiovisual tem a missão de garantir que os canais de rádio e televisão reflitam a diversidade cultural francesa por meio da democratização das outorgas de transmissão e do controle de origem dos conteúdos: nas rádios, há uma cota de músicas em língua francesa que tem de ser transmitida, e, na TV, 60% do conteúdo tem de ser europeu —e, destes, 40% de origem francesa.

O CSA francês é formado por dez conselheiros, sendo que nove deles são indicados pelo governo (três pelo presidente, três pelo Senado e três pela Câmara dos Deputados). Esse modelo predomina na Europa. No Reino Unido e em Portugal, existem ainda órgãos governamentais aos quais a população pode encaminhar reclamações referentes à qualidade da programação e do conteúdo jornalístico dos canais que desfrutam de outorgas públicas.

No caso português, um dos mais recentes na Europa (foi instituído em 2005), a regulação atinge também os jornais impressos, os blogs e os sites independentes. Mesmo nos Estados Unidos, ainda tido como expoente máximo da democracia pelas empresas de comunicação brasileiras, justamente pela ausência de uma regulamentação unificada e sólida, um órgão forte —o FCC (Comitê Federal de Comunicação, em inglês)— regula o conteúdo das emissoras de televisão para evitar abusos contra os consumidores e cidadãos.

As limitações de propriedade lá são ainda maiores do que aqui no que se refere à comunicação de massas.

Nos países desenvolvidos, falar em regulamentação não causa furor, nem tentativas de rotulagem como aqui no Brasil. A compreensão mais ampla sobre seus direitos e suas responsabilidades, especialmente as socioculturais, permite com que europeus debatam de forma aberta a regulação do setor de comunicações, inclusive com a participação das empresas e profissionais.

É apenas disso que se trata a proposta apoiada pelo PT e que os monopólios brasileiros demonizam, como se temessem mortalmente o escrutínio de sua própria audiência. São medidas de inclusão social e cidadã adotadas em países de tradição democrática forte e consolidada, portanto, em nada se assemelha ao tolhimento da liberdade de expressão ou a autoritarismo.

No Brasil, no entanto, são tratadas como “ditatoriais” pela mídia corporativa, que busca a autorregulação à margem do Estado e da opinião do povo brasileiro. Seria mais produtivo que abandonassem tal hipocrisia e abraçassem o importante papel que têm em mãos: o de contribuir para o desenvolvimento do país nesse setor tão crucial para o nosso futuro.


Zé Dirceu

1 de novembro de 2010

Dilma Lá: breve história de uma candidatura

Dilma Lá: breve história de uma candidatura

Dilma vem de uma imensa legião de brasileiros muito bem retratados no livro clássico de Éder Sader, “Quando novos personagens entraram em cena”. Ela representa um novo momento em que um sujeito coletivo ganha o rosto de uma personagem. Foi assim com Lula, rosto do sujeito coletivo das greves do ABC e das mobilizações contra a ditadura; rosto que adquiriu outras feições quando deputado constituinte em 1986; depois quando candidato em 1989, sua primeira campanha presidencial; e quando finalmente foi eleito e reeleito (2002 e 2006). Representa ainda uma longa trajetória de lutas sociais e a ainda breve trajetória de grandes mudanças proporcionadas pelo atual governo. O artigo é de Antonio Lassance.

Antonio Lassance

Dilma é uma nova personagem que entra em cena na história brasileira. Consagrada por quase 56 milhões de votos, 12 milhões a mais que seu adversário, é uma figura distinta, em todos os sentidos; uma novidade e, ao mesmo tempo, uma velha conhecida.

Boa parte do que se tem veiculado sobre a presidente eleita na mídia tradicional desconhece quem é a Dilma, sua capacidade e seu estilo de trabalho. O que até não seria tão grave, se não viesse acompanhado por um profundo desconhecimento sobre o que são o presidencialismo e a Presidência no Brasil. Há um misto de desinformação, má informação e deformação contra alguém que, em plena democracia, continua sendo acusada, como ocorria na ditadura, pelo que fez e pelo que não fez, pelo que é e pelo que não é.

Dilma vem de uma imensa legião de brasileiros muito bem retratados no livro clássico de Éder Sader, “Quando novos personagens entraram em cena” (de 1988). Ela representa um novo momento em que um sujeito coletivo ganha o rosto de uma personagem. Foi assim com Lula, rosto do sujeito coletivo das greves do ABC e das mobilizações contra a ditadura; rosto que adquiriu outras feições quando deputado constituinte em 1986; depois quando candidato em 1989, sua primeira campanha presidencial; e quando finalmente foi eleito e reeleito (2002 e 2006).

Dilma é de uma das três matrizes identificadas por Sader como representativas do pensamento de esquerda no país. Nem da matriz sindicalista, nem das comunidades eclesiais de base da igreja Católica, mas egressa da matriz da esquerda clandestina, que enfrentou as armas e a tortura dos porões da ditadura.

A mais nova personagem desse sujeito coletivo representa uma longa trajetória de lutas sociais e a ainda breve trajetória de grandes mudanças proporcionadas pelo atual governo. Independentemente de sua matriz original, Dilma foi transformada por duas experiências cruciais: a do governo Lula e a da campanha eleitoral. Ambas certamente alteraram profundamente as feições da futura presidenta, o suficiente para que pudesse enfrentar, sobreviver e sair-se vitoriosa de ataques do tipo que já abateu figuras supostamente muito mais experientes do que ela - e que poderiam ter sido as escolhas preferenciais do PT para 2010.

Dilma é uma novidade em termos de seu perfil. O PT sempre acalentou o sonho de consumo de realizar a fórmula propugnada há muito por Carlos Matus. Especialista em planejamento estratégico e com grande ênfase em gestão presidencial, Matus foi assessor de Salvador Allende (Chile, 1965-1970). Visitou o Brasil várias vezes, teve livros publicados pelo IPEA (graças ao empenho de pesquisadores como Ronaldo Garcia) e circulava muito entre o movimento sindical. Matus enfatizava a importância de se combinar desenvoltura política com habilidade técnico-gerencial. Sua criatura abstrata era o dirigente tecnopolítico. Lula, que conheceu Matus pessoalmente, soube usar desse modelo em seu governo, ao combinar sua maestria política - reconhecida até por seus oponentes - com escolhas de alto padrão técnico, como foi o caso de Dilma.

A opção do presidente Lula por Dilma criou a chance de se ter uma presidenta que fosse um quadro tecnopolítico por excelência. A tarefa que se colocava então era a de turbinar tal escolha com um treinamento intensivo, para cumprir um requisito bastante diverso: o da excelência decisória.

Advindo da própria intuição do presidente, os argumentos em torno da excelência decisória foram reforçados, desde 2003, com a visita, ao Brasil e ao Palácio do Planalto, de um especialista em presidências, Richard Neustadt. O autor de “Poder presidencial e os presidentes modernos” estava visivelmente empolgado com o governo Lula, que mal tinha começado e enfrentava sérias dificuldades em seu primeiro ano. Neustadt, do alto de seus 84 anos e com a experiência de quem acompanhou de perto os governos Roosevelt, Truman e Kennedy, acreditava profeticamente que Lula poderia ter para o Brasil a importância que Franklin Roosevelt teve para os Estados Unidos. Contudo, sua audiência palaciana, grata com tal simpatia, mas cética de suas reais possibilidades (que ainda não podiam ser de fato vislumbras), apreciou particularmente uma das teses clássicas de Neustadt: a de que um presidente não precisa ser especialista em nenhuma área, especificamente. Mais do que qualquer outra coisa, ele precisa ser um especialista em presidência da República. Um exímio operador do poder presidencial.

Neste aspecto, Dilma passou por um treinamento intensivo, ou laboratório, se preferirem, que não poderia ocorrer em lugar melhor a não ser na Casa Civil da Presidência da República, ou seja, na estrutura responsável por demandar, digerir e encaminhar os atos presidenciais para deliberação. Por trás das assinaturas de um presidente se escondem processos de decisão política com meandros que Dilma conhece em detalhes.

A experiência na Casa Civil dá a exata dimensão entre o que um presidente quer e o que ele pode; a medida sobre até onde vai o seu poder, que não é imperial, e o que depende de se contar com maioria disciplinada no Congresso - uma das regras do presidencialismo de coalizão. Enquanto isso, uma das comentaristas que transformaram o comentário político no Brasil numa espécie de colunismo social dos Três Poderes avalia que um dos problemas da presidenta eleita é o de que ela tem uma base congressual maior que a do presidente Lula (!)

Aprende-se na Casa Civil que a capacidade e a velocidade de implementação de políticas públicas dependem da natureza de nosso federalismo e do padrão de nossa burocracia. Dilma conhece cada milímetro da Esplanada e esquadrinhou, com o PAC, cada milímetro do País. Na Casa Civil, se é treinado o tempo todo para saber que nenhuma decisão é correta se for tomada da forma errada e em hora certa incerta.

Um presidente deve saber exatamente em que ponto da estrada deve pisar no freio e quando pode afundar o pé no acelerador. No final de 2003, foram apresentados a Lula resultados de uma pesquisa de opinião que atestava: as pessoas entendiam o momento de arrumar a casa e estavam pacientes com relação às mudanças prometidas. A conclusão oferecida pelos analistas da pesquisa era: o povo não está com pressa. O presidente, que pisou no freio por todo o ano de 2003, retrucou, simples e direto : “o povo não tá com pressa, mas eu tô”. Dilma qualificou-se dentro da Casa Civil para ser uma especialista em presidência ao tornar-se também uma especialista em “timing”.

Dilma, "pela primeira vez na história do País", permitirá que o Brasil tenha uma sequência democrática de governos que cumprem o ciclo de construtores de regimes e gerenciadores de regime, uma noção comum na literatura sobre presidências.

Há presidentes que são construtores de regimes e outros que são seus gestores. Uns constróem uma maneira particular de fazer política e uma orientação diversa da ação do Estado, representando uma coalizão majoritária que desaloja uma antiga coalizão, em decadência. Por sua vez, os gestores de regimes têm como tarefa manter sua coalizão unida, avançar na realização das políticas públicas que cimentam a coesão de suas bases e oferecer respostas a seus eleitores, na forma de ações governamentais. São os gestores de regime que desvelam o legado do presidente anterior e desdobram suas realizações.

No Brasil, se pode dizer que esse ciclo foi cumprido apenas em três épocas: no início da República, entre Campos Sales (verdadeiro construtor do regime da República Velha) e Rodrigues Alves; na Era Vargas, quando Getúlio foi, primeiro (1930-1945) construtor de um novo regime e, depois, ele próprio, continuador de sua construção pregressa, começando em 1950, tragicamente interrompida em 1954. Finalmente, no período dos governos da ditadura militar (1964-1984). Na República Velha, o Brasil tinha um regime pouco representativo (oligárquico e não democrático). A construção do regime varguista ocorreu sobretudo a partir de uma ditadura, a do Estado Novo. O mesmo vale para os 20 anos da ditadura de 64.

Dilma é a primeira experiência democrática brasileira de gestão de um novo regime político e de suas políticas públicas. Todas as demais fracassaram sem deixar sucessores: Juscelino, Jango, Sarney, FHC.

Gerenciar um regime, em parte, é continuar o que tem sido feito, mas apenas em parte. Em grande medida, um presidente de continuidade é um desbravador e um desdobrador. Não é alguém que fará a pintura de uma casa já construída. É quem pega o leme no meio da viagem e precisa conduzir a embarcação adiante, até completar-se o ciclo.

O regime estruturado pelo presidente Lula suplantou a montagem minimalista do tucanato. FHC apostou todos os esforços na estabilidade macroeconômica e supôs que, daí, os resultados para o crescimento econômico e para a melhoria das condições sociais viriam naturalmente. Não vieram, e isso explica seu declínio.

A coalizão encabeçada por Lula e seu novo regime basearam-se na combinação de estabilidade econômica com esforços decididos e simultâneos de aceleração do crescimento e redução drástica das desigualdades. Duas coisas que, na mentalidade do regime anterior, estavam fora da governabilidade do Executivo federal e deveriam ser subproduto da estabilidade.

A campanha possibilitou a todos, em especial à presidenta eleita, a percepção clara da importância da mobilização e do contato popular. Principalmente a campanha de segundo turno. Ficou claro que, deixada à sua própria sorte, Dilma e Lula seriam derrotados pelas forças do atraso.
Os relatos de quem a acompanhou na campanha são repletos de histórias sobre como o semblante e a disposição da candidata eram energizados pelo contato popular. Algo que vai na mesma linha do que o presidente Lula não se cansa de repetir: as viagens pelo país garantem o contato com o povo, e isso revigora um presidente.

A estrutura de qualquer presidência da República é tradicionalmente montada para afastar a “autoridade” daqueles que o elegeram. A presidência diariamente se esforça para assoberbar o presidente com papéis, para manter suas portas fechadas, para isolá-lo do barulho das ruas.

Diante disso, se o presidente se acomoda, se ele não se insurgir contra uma rotina ritualizada, se ele não fugir do Palácio, ele se tornará um presidente cada vez menos popular. É preciso romper os limites do palácio de cristal (outra imagem muito conhecida criada por Matus), a redoma que tem a boa intenção de proteger o presidente de tudo, mas que acaba por afastá-lo, inclusive, daquilo que há de melhor.

As viagens pelas quais o presidente foi tantas vezes criticado, mesmo quando percorria seu próprio país e visitava as localidades mais pobres, permitiram que ele visse claramente as mudanças em curso e os problemas que engavetavam suas decisões. Mas, principalmente, as viagens recarregavam suas baterias com uma energia que não é gerada em despachos, em reuniões ministeriais e em negociações com o Congresso - ao contrário, essas a exaurem.

Pelo pouco que se viu das primeira horas após o resultado das eleições, pode-se antever também outra novidade: ao contrário de presidentes anteriores, Dilma não contará com aquela fase de “lua de mel”, os primeiros 100 dias em que oposição e imprensa dão um desconto para o presidente que entra, antes de abrir fogo com todas as suas baterias. Mesmo informado do discurso de paz e da mão estendida, a oposição fez declaração de guerra. O candidato derrotado - aquele que sacralizou a baixaria - deu ao conservadorismo mais abominável o qualificativo de “delimitação de campo”. E avisou: “isso não é o fim. Isso é apenas o começo”. A frase queimada no calor da derrota exala uma fumaça com forte cheiro de terceiro turno.

Neste sentido, mesmo com toda a agressividade, a oposição se coloca em desvantagem. Ao contrário de Dilma, que aprendeu muito em pouco tempo, a oposição demonstra que nada aprendeu em 8 anos de sucessivas derrotas. Consegue considerar-se campeã moral de uma guerra na qual se desmoralizou. Seu diagnóstico é o de que quem errou foi o povo. “Não foi dessa vez”, que se traduz em “o povo um dia aprende”. Suas lideranças se fecharam em copas e se arvoram bastiões dos velhos tempos; tempos que não voltam mais, principalmente porque cada vez menos gente sente saudades deles.

Ao longo da campanha, uma das formas mais utilizadas de se manifestar apoio a Dilma foi estampar sua foto de militante clandestina presa pela ditadura. As pessoas mostravam sua adesão a um rosto que simbolizava uma identidade coletiva. Enquanto essa coletividade estiver unida em torno de Dilma, a oposição estará condenada a repetir: “não foi dessa vez”.No que depender de seu preparo, a presidenta eleita teve, ao longo da vida, as melhores dentre todas as escolas.

(*) Cientista político, pesquisador do IPEA, foi assessor da Presidência da República de 2003 a 2010.

A capa da nojenta revista Veja

Primeiro pronunciamento de Dilma como presidente eleita (31 de outubro)